Capítulo 2

“É inútil dizer que fechar olho foi impossível naquela noite. Comecei a imaginar os preparativos, a viagem, a nova casa, a nova vida, o meu novo trabalho, a minha carreira de sucesso na empresa. Até que caí em mim e me dei conta do ridículo. Tinha de me acalmar mas eram três da manhã e com os avós a ressonar era difícil encontrar serenidade. Pensei em levantar-me e ir até à sala mas a minha avó dá sempre conta de tudo. Esperei mas já não conseguia aguentar. Lá fui, então, em pontas de pés, até à cozinha. A meio do corredor não falhou.

– O que é que fazes levantada a estas horas garrota?

– Avó, nada. Não consigo dormir, vou beber um copo de água.

– Tu estás a mentir à avó. Diz-me lá, o que é que tens?

Repeti, protestei mas de nada serviu.

– Eu bem disse que andavas muito pálida e que tinhas emagrecido. Tem lá cuidado filha que ainda é alguma coisa aos intestinos.

– Aos intestinos?

– Eu bem disse. Deus nos ajude! Mas olha que é isso. Vamos lá ver se não te acontece como ao sobrinho da dona Alzira.

– O que é que estás para aí a dizer?

– Pois é. Contou-me ela, hoje de manhã.

Fiz-lhe sinal para irmos para a cozinha porque já sabia que a conversa não acabava por ali.

– Avó, não tenho nada. Não me dói nada. Só não consigo dormir.

– Pois, a ele também não doía nada!

Tentei pôr fim à conversa.

– Deixa-me contar. Hoje, quando voltei das compras. Já sabes que gosto de ir às compras à sexta-feira, têm sempre peixe fresco. E olha, até lá comprei peixe-espada. Está ali no frigorífico. Amanhã, fazemos umas brasas, o que é que achas?

Resmunguei alguma coisa. Àquelas horas não estava com cabeça para pensar no menu do almoço.

– Então, ia eu a dizer…Ah, sim… voltando das compras, aparece-me aqui a dona Alzira aflita. Ora quando a vi assim, fiquei logo preocupada. E foi aí que ela me contou.

Fez uma longa pausa, em silêncio, para criar suspense. Sempre achei que a minha avó tinha jeito para contar histórias. Podia ter sido uma grande escritora de romances policiais ou uma famosa realizadora de filmes do género thriller.

– “Ai, dona São, não imagina o que aconteceu”, disse-me ela. E eu fui logo ao seu encontro para saber que desgraça tinha acontecido. Então, não é que o seu sobrinho, o Filipe… Tu conhece-lo. Lembras-te dele?

Continuei a olhar para os chinelos.

― Lembras-te dele ou não?

– Avó não sei, não me lembro – respondi rabugenta.

– Não te lembras! – disse ela indignada. ― Então, não conheces o filho da dona Alzira? Pois conheces! Então, é o filho dele. Casou-se no verão passado. Ou há dois anos? Deixa-me cá lembrar. Acho que foi há dois anos. Pois foi, foi. Casou com uma rapariga dos Olivais que é da família do Avelino, que foi o com teu pai para França, já lá vão anos. Ora deixa-me cá contar.

Já não aguentava. Pus água ao lume.

– Foi nos anos setenta. Se a minha memória não me engana, foi em 1972. É que coitados fugiram para não ir para a guerra. Eram tempos duros.

– Avó, queres café, chá?

– Um cafezito. Pois bem, descobriram-lhe um mal ruim. Ai coitado, tão jovem. Estava a arranjar a vidinha dele. A moça até é boa rapariga ao que se diz por aí. Não andava cá metida com uns e com outros. E olha o que foi acontecer.

Descobri que já não havia café mas apenas uma mistura de cevada. Talvez fosse melhor assim.

– E dizem que é maligno.

– Avó, não tenho nada!

Terminada a bebida quente, decidi voltar para a cama com medo que começasse outra história.

Acordei num sobressalto. O telemóvel estava a tocar.

– Estou.

– Bonjour…

Fiquei em pânico. Tentei esclarecer a voz rouca da manhã e fazer funcionar o meu sistema neuronal para poder responder coerentemente.

 

Já não tenho nítida na memória a entrevista. Só sei que ao pôr o despertador não me tinha recordado que em França o fuso horário não era o mesmo. As dez lá, eram as nove cá. Como digo, não me lembro mas sei que no final fiquei sem fôlego quando me disse que o posto de secretária era para mim. Davam-me uma semana e meia para me apresentar. No mesmo dia, enviar-me-iam a promessa de contrato de trabalho. Não queria acreditar.

Estava à beira da exaustão com as correrias. Sentia pelo corpo uma espécie de eletricidade que, por um lado, me impedia de dormir aumentando o cansaço, mas, por outro, permitia-me estar alerta e muito enérgica – elétrica, direi. O pior de tudo, foi contar aos meus avós e convencê-los de que iria correr tudo bem.

– Avó. Avô. Tenho uma coisa por vos contar – disse quando estávamos a almoçar.

– Ah, vês! Sempre tinha razão. Tens alguma coisa!

– Avó, deixa-me falar.

– A dona Margarida viu-te com o Bruno no outro dia, veio-te cá trazer de carro. Espero que não tenham andado na pouco vergonha. Estás grávida, é isso filha? – perguntou num tom de tragédia.

Não sei que raio de mecanismos cerebrais tem a minha avó para conseguir associar factos entre si totalmente alheios. Um amigo da terra que me dá boleia, um cancro aos intestinos, um emprego de secretária no sul da França, uma guerra em África e um peixe-espada em promoção.

– Avó! Deixas-me falar ou não?!”

 

Excerto do Capítulo 2, “Licenciar”

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