“Mon oncle” de Jacques Tati

mononcletati “Prevenida, portanto, à sexta-feira à tarde costumo passar pela mediateca para trazer algum DVD para casa. Quis rever Mon Oncle de Jacques Tati. Nunca me farto. Este realizador, com origens mais confusas do que as minhas, conseguiu já a seu tempo capturar em imagens a absurdidade da sociedade moderna.

[…]

Noto como Adrienne faz visitar a casa a todos. Dou-me conta do ridículo. Não imagino as classes altas a mostrarem os seus quartos de dormir e de banho aos convidados antes de um grande jantar em que se falará da atualidade política e das novidades culturais. São hábitos do povo e dos novos-ricos, ou seja, daqueles que fizeram a vidinha deles, que conseguiram na vida à custa de algum suor. Saber se também conseguiram a vida deles, é outra questão. Quer-se mostrar o que se alcançou, nem sempre por vaidade mas porque a vida não é fácil. A casa torna-se o símbolo e o estandarte do sucesso. No caso da Adrienne, o fontanário também faz parte. Um português poderia mostrar a sua churrasqueira em pedra. Quando já não se vive numa espelunca cheia de humidade com o palheiro por cima ou o curral por baixo, quando o trabalho nos permite pagar a compra ou o aluguer, queremos mostrar àqueles que fazem parte da nossa vida a que ponto estamos. Assim florescem em Portugal as mansões enormes, mesmo se a custo de mensalidades assustadoras que se prolongarão por trinta ou quarenta anos. Lá nisso também os emigrantes alinham. Casarões fantasmas durante onze meses do ano. Onze meses que são passados em casas estreitas nalgum bairro da periferia de uma grande cidade no estrangeiro. De qualquer maneira abrir a porta, fazer entrar a outra pessoa em todas as divisões é como dizer-lhe que é bem-vinda, que a nossa casa é também a sua. Não há segredos, não há divisões, nem esconderijos na nossa relação. Sinto-me sempre tão pouco à vontade numa casa em que apenas entrevi a entrada antes de me confinarem numa salinha.

O cão é de novo protagonista. Enquanto os humanos se pasmam diante de um portão elétrico e de um automóvel novo, o cão vai farejando a pouca relva. É agora que acontece. O cão, rabo levantado, passa diante do sensor. E ei-los fechados na garagem. O cão bem volta mas de rabo entre as pernas. « Pour ouvrir la porte, il suffit de passer dans le rayon lumineux » diz Adrienne à empregada. Oiço bater à porta. E a minha não tem nenhum sensor nem abertura automática.” (Capítulo 3)

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