Catálogo “Vacances BTP”

RO80158226 “Por casa, de vez em quando, aparecia junto à revista com os programas televisivos um catálogo fininho, sossegadamente empacotado no plástico com que viaja pelos Correios. O catálogo Vacances BTP – Bâtiment et Travaux Publics. Um catálogo de férias para trabalhadores da construção civil com preços adaptados aos rendimentos. Pensado para famílias, pensado para a classe média-baixa, pensado para os franceses. Na construção, portugueses não faltam mas, português que é português, em agosto, volta à terra. À terra, longe das águas tranquilas e mornas do mediterrâneo. Bem tentei convencer os meus pais.

Houve um ano em que as duas metas propostas ao estrangeiro eram a Tunísia e a ilha da Madeira. Aproveitei. A Madeira é Portugal. Mesmo assim, o meu pai não arredou pé. Assim, no primeiro fim de semana de agosto, foi do acelerador que não arredou pé por mil quatrocentos e cinquenta e seis quilómetros, no seu Mercedes laranja ouvindo Madonna e Boney M e uma cassete com as músicas dos bailaricos do verão anterior.” (Capítulo 4)

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“Mon oncle” de Jacques Tati

mononcletati “Prevenida, portanto, à sexta-feira à tarde costumo passar pela mediateca para trazer algum DVD para casa. Quis rever Mon Oncle de Jacques Tati. Nunca me farto. Este realizador, com origens mais confusas do que as minhas, conseguiu já a seu tempo capturar em imagens a absurdidade da sociedade moderna.

[…]

Noto como Adrienne faz visitar a casa a todos. Dou-me conta do ridículo. Não imagino as classes altas a mostrarem os seus quartos de dormir e de banho aos convidados antes de um grande jantar em que se falará da atualidade política e das novidades culturais. São hábitos do povo e dos novos-ricos, ou seja, daqueles que fizeram a vidinha deles, que conseguiram na vida à custa de algum suor. Saber se também conseguiram a vida deles, é outra questão. Quer-se mostrar o que se alcançou, nem sempre por vaidade mas porque a vida não é fácil. A casa torna-se o símbolo e o estandarte do sucesso. No caso da Adrienne, o fontanário também faz parte. Um português poderia mostrar a sua churrasqueira em pedra. Quando já não se vive numa espelunca cheia de humidade com o palheiro por cima ou o curral por baixo, quando o trabalho nos permite pagar a compra ou o aluguer, queremos mostrar àqueles que fazem parte da nossa vida a que ponto estamos. Assim florescem em Portugal as mansões enormes, mesmo se a custo de mensalidades assustadoras que se prolongarão por trinta ou quarenta anos. Lá nisso também os emigrantes alinham. Casarões fantasmas durante onze meses do ano. Onze meses que são passados em casas estreitas nalgum bairro da periferia de uma grande cidade no estrangeiro. De qualquer maneira abrir a porta, fazer entrar a outra pessoa em todas as divisões é como dizer-lhe que é bem-vinda, que a nossa casa é também a sua. Não há segredos, não há divisões, nem esconderijos na nossa relação. Sinto-me sempre tão pouco à vontade numa casa em que apenas entrevi a entrada antes de me confinarem numa salinha.

O cão é de novo protagonista. Enquanto os humanos se pasmam diante de um portão elétrico e de um automóvel novo, o cão vai farejando a pouca relva. É agora que acontece. O cão, rabo levantado, passa diante do sensor. E ei-los fechados na garagem. O cão bem volta mas de rabo entre as pernas. « Pour ouvrir la porte, il suffit de passer dans le rayon lumineux » diz Adrienne à empregada. Oiço bater à porta. E a minha não tem nenhum sensor nem abertura automática.” (Capítulo 3)

Bolachas

gateaux-prince-lu-chocolat-“A planície verdejante que se abre à nossa frente ajuda-me a aplanar as minhas emoções. Ao relaxar-me tomo consciência da minha fome e fraqueza. Como é que vou tirar da mochila um pacote de bolachas sem parecer uma criança à hora do lanche. Além do mais, é um pacote das minhas bolachas preferidas, daquelas mesmo para os garotos. Dois redondos de bolacha unidos por um creme de chocolate. Não posso esperar o desmaio para ganhar coragem. Puxo a mochila para a frente, abro o fecho.

― Quer uma bolacha? – pergunto envergonhada e sem explicações quanto à fome.

― Também já sinto fome. Aceito com prazer.

Pior. Tiro da mochila o pacote cilíndrico. E abro a boca para me desculpar de tal infantilidade mas não faço em tempo.

― Não acredito! Desde a escola primária que não como dessas!” (Capítulo 5)

Mercedes 240D

photo-blog-p4060033-img“Tenho bem pouco a dizer. Sou filha do mau gosto dos anos 80. Relembro os penteados volumosos, as camisolas grossas e largas, a Mercedes com que fazíamos a viagem de Paris a Portugal no calor dos primeiros dias de agosto. Tínhamos uma modelo 240D, cor de laranja dúbio com, obviamente, os tampões das rodas da mesma cor. O seu interior era em couro e podem, por isso, imaginar como era voltar para dentro do carro depois de uma paragem para comer o farnel em pleno deserto castelhano ao início da tarde.” (Capítulo 1)

O telefone

fedee82fb1153e332cdf33f583fbbbb0“Lembro-me quando conhecia de cor os números de telefone de toda a família e amigos. Recordava cada um. Sinto nostalgia dos tempos em que compunha o número num daqueles telefones com a roda da fortuna. Colocava-se o dedo no buraquinho do número que queríamos marcar, rodávamos no sentido horário até à vírgula de metal e largávamos. E de novo, o dedo no furo, desenhar um círculo no sentido dos ponteiros do relógio e largar. O meu preferido era obviamente o zero. Que saudade! Na minha infância, em cima de um napperon, tínhamos um daqueles modelos que até tinham um pequeno auscultador para permitir a uma terceira pessoa participar à conversa pela escuta.” (capítulo 3)