O telefone

fedee82fb1153e332cdf33f583fbbbb0“Lembro-me quando conhecia de cor os números de telefone de toda a família e amigos. Recordava cada um. Sinto nostalgia dos tempos em que compunha o número num daqueles telefones com a roda da fortuna. Colocava-se o dedo no buraquinho do número que queríamos marcar, rodávamos no sentido horário até à vírgula de metal e largávamos. E de novo, o dedo no furo, desenhar um círculo no sentido dos ponteiros do relógio e largar. O meu preferido era obviamente o zero. Que saudade! Na minha infância, em cima de um napperon, tínhamos um daqueles modelos que até tinham um pequeno auscultador para permitir a uma terceira pessoa participar à conversa pela escuta.” (capítulo 3)

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http://www.lusojornal.com/france_edition.htm (Artigo página 12, do nº 205 | Série II, do 11 de fevereiro de 2015)

http://www.portugalvivo.com/romance-estrangeira-a-mim-mesma-de.html

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Capítulo 2

“É inútil dizer que fechar olho foi impossível naquela noite. Comecei a imaginar os preparativos, a viagem, a nova casa, a nova vida, o meu novo trabalho, a minha carreira de sucesso na empresa. Até que caí em mim e me dei conta do ridículo. Tinha de me acalmar mas eram três da manhã e com os avós a ressonar era difícil encontrar serenidade. Pensei em levantar-me e ir até à sala mas a minha avó dá sempre conta de tudo. Esperei mas já não conseguia aguentar. Lá fui, então, em pontas de pés, até à cozinha. A meio do corredor não falhou.

– O que é que fazes levantada a estas horas garrota?

– Avó, nada. Não consigo dormir, vou beber um copo de água.

– Tu estás a mentir à avó. Diz-me lá, o que é que tens?

Repeti, protestei mas de nada serviu.

– Eu bem disse que andavas muito pálida e que tinhas emagrecido. Tem lá cuidado filha que ainda é alguma coisa aos intestinos.

– Aos intestinos?

– Eu bem disse. Deus nos ajude! Mas olha que é isso. Vamos lá ver se não te acontece como ao sobrinho da dona Alzira.

– O que é que estás para aí a dizer?

– Pois é. Contou-me ela, hoje de manhã.

Fiz-lhe sinal para irmos para a cozinha porque já sabia que a conversa não acabava por ali.

– Avó, não tenho nada. Não me dói nada. Só não consigo dormir.

– Pois, a ele também não doía nada!

Tentei pôr fim à conversa.

– Deixa-me contar. Hoje, quando voltei das compras. Já sabes que gosto de ir às compras à sexta-feira, têm sempre peixe fresco. E olha, até lá comprei peixe-espada. Está ali no frigorífico. Amanhã, fazemos umas brasas, o que é que achas?

Resmunguei alguma coisa. Àquelas horas não estava com cabeça para pensar no menu do almoço.

– Então, ia eu a dizer…Ah, sim… voltando das compras, aparece-me aqui a dona Alzira aflita. Ora quando a vi assim, fiquei logo preocupada. E foi aí que ela me contou.

Fez uma longa pausa, em silêncio, para criar suspense. Sempre achei que a minha avó tinha jeito para contar histórias. Podia ter sido uma grande escritora de romances policiais ou uma famosa realizadora de filmes do género thriller.

– “Ai, dona São, não imagina o que aconteceu”, disse-me ela. E eu fui logo ao seu encontro para saber que desgraça tinha acontecido. Então, não é que o seu sobrinho, o Filipe… Tu conhece-lo. Lembras-te dele?

Continuei a olhar para os chinelos.

― Lembras-te dele ou não?

– Avó não sei, não me lembro – respondi rabugenta.

– Não te lembras! – disse ela indignada. ― Então, não conheces o filho da dona Alzira? Pois conheces! Então, é o filho dele. Casou-se no verão passado. Ou há dois anos? Deixa-me cá lembrar. Acho que foi há dois anos. Pois foi, foi. Casou com uma rapariga dos Olivais que é da família do Avelino, que foi o com teu pai para França, já lá vão anos. Ora deixa-me cá contar.

Já não aguentava. Pus água ao lume.

– Foi nos anos setenta. Se a minha memória não me engana, foi em 1972. É que coitados fugiram para não ir para a guerra. Eram tempos duros.

– Avó, queres café, chá?

– Um cafezito. Pois bem, descobriram-lhe um mal ruim. Ai coitado, tão jovem. Estava a arranjar a vidinha dele. A moça até é boa rapariga ao que se diz por aí. Não andava cá metida com uns e com outros. E olha o que foi acontecer.

Descobri que já não havia café mas apenas uma mistura de cevada. Talvez fosse melhor assim.

– E dizem que é maligno.

– Avó, não tenho nada!

Terminada a bebida quente, decidi voltar para a cama com medo que começasse outra história.

Acordei num sobressalto. O telemóvel estava a tocar.

– Estou.

– Bonjour…

Fiquei em pânico. Tentei esclarecer a voz rouca da manhã e fazer funcionar o meu sistema neuronal para poder responder coerentemente.

 

Já não tenho nítida na memória a entrevista. Só sei que ao pôr o despertador não me tinha recordado que em França o fuso horário não era o mesmo. As dez lá, eram as nove cá. Como digo, não me lembro mas sei que no final fiquei sem fôlego quando me disse que o posto de secretária era para mim. Davam-me uma semana e meia para me apresentar. No mesmo dia, enviar-me-iam a promessa de contrato de trabalho. Não queria acreditar.

Estava à beira da exaustão com as correrias. Sentia pelo corpo uma espécie de eletricidade que, por um lado, me impedia de dormir aumentando o cansaço, mas, por outro, permitia-me estar alerta e muito enérgica – elétrica, direi. O pior de tudo, foi contar aos meus avós e convencê-los de que iria correr tudo bem.

– Avó. Avô. Tenho uma coisa por vos contar – disse quando estávamos a almoçar.

– Ah, vês! Sempre tinha razão. Tens alguma coisa!

– Avó, deixa-me falar.

– A dona Margarida viu-te com o Bruno no outro dia, veio-te cá trazer de carro. Espero que não tenham andado na pouco vergonha. Estás grávida, é isso filha? – perguntou num tom de tragédia.

Não sei que raio de mecanismos cerebrais tem a minha avó para conseguir associar factos entre si totalmente alheios. Um amigo da terra que me dá boleia, um cancro aos intestinos, um emprego de secretária no sul da França, uma guerra em África e um peixe-espada em promoção.

– Avó! Deixas-me falar ou não?!”

 

Excerto do Capítulo 2, “Licenciar”

Capítulo 3

“Encontramo-nos finalmente numa das praças do centro da cidade. O edifício fica ali mesmo. Tem charme. É um prédio em estilo haussmanniano. Não é região deles. Vou subindo os degraus e, a cada passo, acrescenta-se uma batida ao meu ritmo cardíaco ao ponto que chego ao terceiro andar com uma arritmia severa e um sopro fraco. A descontraída Julie dá um toque na campainha alegre. Não tenho tempo de recuperar o fôlego e da taquicardia, eis a porta abrir-se.

― Minhas caras! Entrem, entrem!

A cena é teatral. Porta e braços escancarados, olhar de deusa enamorada e tronco ligeiramente arqueado para trás.

― Dêem-me as malas e os casacos, queridas, e acomodem-se no salão.

Sinto um aperto no coração. A mala não. Mas já não há nada a fazer. A Clothilde pega na malinha de pele chinesa. Do mesmo modo, pega no casaco lançando um rápida olhadela à etiqueta, com certeza também essa made in P.R.C. Já estou tramada.

Da rua, já parecia um edifício burguês, do interior o efeito é maior. Os meus quarenta metros quadrados equivalem aqui ao salão. O chão é de soalho, o teto alto com molduras em gesso. A quase totalidade de uma parede consiste numa repetição de largas janelas permitindo usufruir de uma vista incrível sobre a cidade iluminada. Terá uns dois quartos, suponho. Gente fina, não fará visitar a sua mansão. Fico pela minha curiosidade.

No ângulo convívio, estão dois homens e duas mulheres, copos na mão, rires e cacarejos. Parecem-me da mesma estirpe que a dona de casa. Os dois homens estão vestidos de modo descontraído mas elegante. Umas calças escuras e uma camisa às riscas azuis claras para um, umas calças claras e uma camisa branca para outro. O de roupas claras ostenta um sorriso digno de um anúncio publicitário para pasta de dentes, tem o cabelo bem gelatinizado e um grosso relógio. As personagens femininas vestem todas o mesmo, exceto a Julie e eu. Calças de tamanho anoréxico, blusas semitransparentes em tecidos requintados mas com cortes falsamente modestos, por outras palavras, umas blusas sem estilo mas que custam um dinheirão.

A Julie sempre muito à vontade cumprimenta as conhecidas e apresenta-se aos dois desconhecidos o que dá início a uma onda de apresentação a repetição. Nomes voam e esvoaçam sem eu perceber de onde provêm e a quem se referem. Anuncia-se o baile dos aperitivos.

 

Chegam, dispostos geometricamente sobre pratos brancos e cor de prata, uns mini-copos recheados de cores e texturas. As famigeradas verrines. Artísticas. Há quatro modelos, cada um reproduzido oito vezes. Suponho que toda esta matemática signifique que cada um tem direito a uma. Põe-se o problema da oitava. Perco-me na tentativa de resolver a equação.

― Podemos começar. Um dos convidados chegará um pouco mais tarde – diz a anfitriã pegando num copinho.

Obviamente, todos seguimos o seu exemplo pegando nas réplicas. Gosto de ser sincera e reconhecer as coisas tal como estão. Devo, por essa razão, confessar que aquelas coisinhas não são nada más. São requintadas, certo, mas com sabores genuínos. Vamos comendo e saboreando mas fingindo que não nos estamos a deliciar com aquelas obras-primas culinárias – pois ai de quem, nestes ambientes, se degrade tagarelando sobre comida -, mas apenas com a conversa que se quer agradável apesar de não conseguir focalizar o assunto e de me parecer vazia como os três copinhos já ingeridos. Até que alguém se lembra de fazer zoom sobre a minha pessoa.

― Não façam cerimónia. Ah, Sophie, espero que não te importes, hoje não há bacalhau – gruguleja a Clothilde. ― Sim, porque a Sophie vem de Portugal – explica olhando para os outros convidados.

― Ai, mas falas muito bem francês! – intervém outra do poleiro.

Explico, com a maior naturalidade de que sou capaz neste momento, que vivi em Portugal apenas nos últimos anos mas que nasci em França. Acho sempre humilhante narrar a minha história, soa como uma justificação.

― Bem, mas de qualquer maneira és portuguesa – acrescenta o camisa-azul escarrapachado numa das poltronas.

A Julie intervém imediatamente dizendo que também sou francesa. É o começo de uma grande discussão. Cada um expõe a sua opinião e os seus “mas se”. É o sangue ou o território de nascimento a determinarem a nacionalidade? Alicerça-se na cultura da família ou na da sociedade onde crescemos? Qual é o peso da hereditariedade, da educação e do ambiente? Deixo de ouvir as platitudes que me relembram as aulas sobre Zola e perco-me nos meandros da minha identidade indefinida que está a ser debatida, enquanto eu calo no banco dos réus. Finalmente, a Clothilde, que está a perder protagonismo, põe fim ao processo convidando-nos a ocupar os nossos lugares à mesa.

 

Dirijo-me com o grupinho e com alívio para a zona da sala de jantar. A mesa está adornada em estilo moderno mas sempre com elegância. Não há toalha, mas sim uns individuais em bambu sobre a madeira à vista da mesa. Pratos brancos, talheres cor de prata e copos altos de cristal colorido em tons variados e claros. No meio serpenteia, por entre velas, uma trança de orquídeas.

À entrada, a casa oferece vieiras saltadas, servidas em mini-travessas, à volta das quais foi criada uma sofisticada e arquitetónica decoração com pérolas de caviar e legumes geométricos. Petisco e tento seguir os diálogos que mais parecem monólogos partilhados sobre inaugurações de joalharias ou jantares promovidos por relojoarias, noites em discotecas e bares chiques e vip’s patrocinadas por grandes marcas de bebidas alcoólicas. Não intervenho porque, sobre tal mundo, nada sei.

Põem fim às conversas mundanas umas mini-caçarolas de barro preto fumegantes. Gratin dauphinois aux deux saumons. Não tenho palavras. Voluptuoso, talvez. Pela quentura, a conversa vai recomeçando e arrastando-se. Pois verdade seja dita, devoramos as raras vieiras.

― Então e a tua família está em Portugal ou em França? – pede o camisa-azul sem transição cotovelo na mesa.

Estranho a curiosidade mas explico que os meus pais vivem na região parisiense.

― E trabalham em quê?

Nunca senti vergonha dos meus pais mas confesso que, neste instante, faria de tudo para poder fugir à pergunta e à resposta. Aguardo que algo aconteça, que a cozinha pegue fogo, que o teto desabe, que os tubos rebentem. Nada. Nem dilúvio, nem terramoto, nem incêndio. O silêncio vaporífero torna-se incomodativo e, por isso, contento a plateia.

― O meu pai trabalha na construção.

― Oh, é empresário da construção civil?! – pergunta a mesma galinha do aperitivo.

― Não, trabalha por conta de outrem – respondo como se estivesse a preencher um impresso das finanças.

― E a tua mãe? – interrompe com manha o camisa-azul.

― É mulher-a-dias.

O silêncio condensa-se de novo. As natas parecem-me azedas. As axilas orvalhadas.

― Pensem, o meu trisavô também começou como simples pedreiro – diz entusiasta a Julie.

 

E narra. O seu trisavô tinha começado a sua vida como jornaleiro numa quinta. Tinham-lhe confiado a reconstrução de um muro em pedra. Aos poucos, tinha ganho a confiança do dono e merecido as suas boas graças. Ele e a mulher acabaram por dedicar toda a sua vida ao serviço daquela quinta vinícola. O homem morreu viúvo e sem filhos. No testamento, tinha deixado a quinta ao seu trisavô. Apesar de ter herdado da casa senhoril, tinham continuado a morar na casinha dos serviçais. Tinham sido os filhos os primeiros da linhagem a habitarem aquela mansão.

― Oh, é incrível! – comentam os comensais em uníssono.

Durante a narração, o meu espírito flutuava longe e alto, as palavras eram distantes, chegavam como um eco aos meus ouvidos. Sei que aquela história foi contada para salvar a situação. Mas não havia nada a salvar. O meu pai era empregado das obras e continuava a sê-lo. Nem herança, nem mansão. No entanto, não é com a história da Julie que estou irritada mas comigo própria. Sinto raiva pelas emoções indistintas que me atravessam a alma confusa ao tirar fora a minha história casual. Quer seja a nacionalidade, quer seja a posição humilde da minha família, ou ainda a minha situação profissional – já para não falar da minha inexistente situação sentimental -, sinto-me sempre desadequada, desalinhada. Pareço estar sempre a desculpar-me por ser como sou, por ser quem sou.

 

É em plena feira dos comentários que tocam à campainha. Uso o plural por causa do sujeito indefinido e desconhecido mas, na realidade, apenas um tocou à campainha e é conhecido. Todos os convidados estão de pescoço esticado para poderem ver o recém-chegado.

― Xavier, entra. Que bom teres vindo! Estávamos mesmo para encetar a sobremesa – disse a Clothilde toda eufórica.

― Desculpem a intrusão e o atraso. Fico honrado por poder ainda aproveitar da vossa companhia e da sobremesa.

Todos se empurram à palavra para pôr à vontade e desculpar o hóspede atrasado. Eu já bastante abalada pelas conversas anteriores, sinto que me vai custar a digerir mais um conviva. Estou de novo a subir escadarias emocionais. Tenho de novo o coração aos pulos, a respiração cortada. O mal-estar começa a ganhar terreno sintomático e já sinto as faces a arder, as mãos húmidas e as axilas ensopadas. Enquanto tento a custo de técnicas budistas apressadas controlar o fluxo do ar e do sangue, o recém-chegado oferece uma demorada rodada de apertos de mão. Fico confusa pelos olhares que me dirige entre dois. Tento desviar o olhar, torno-me indiferente. Espero que não me tenha reconhecido. Resolvo fingir uma amnésia. Será fácil disfarçar um esquecimento dado que nunca nos falamos. Sim, lá por nos termos cruzado uma vez pelos corredores da empresa, não pense ele que pode pretender familiaridade. A próxima sou eu. Respiração harmoniosa, pulsação regular. Estende-me a mão com um sorriso que não tem nada do camisa-branca e um olhar que o camisa-azul poderia invejar.

― Xavier, muito prazer.

Respondo num tom mais morno. Talvez frio. Senta-se na cadeira ao meu lado. Os meus órgãos recomeçam a dançar fandango. Não tinha previsto o pormenor da cadeira. Restavam três cadeiras livres na ponta da mesa. Poderia ter-se sentado do outro lado, junto à Julie, mas não, tinha de me calhar.

 

A posição é um tanto inconfortável. Os comensais atraídos pela novidade estão todos virados para o meu cantinho de mesa. Sinto o toque leve do seu olhar. Gostaria de poder confirmar mas estando ao seu lado, teria de virar demasiado a cabeça e correria o risco de encontrá-lo.

Sem perceber bem como, a sobremesa já está servida. Permito-me fazer aqui uma correção a quanto tinha sido dito. O verbo encetar não é para aqui chamado. Usamos encetar quando cortamos uma primeira parte a algo inteiro e do qual podemos originar várias porções. Quando podemos dividir, partilhar, oferecer. Ora aqui, a sobremesa é individual. Como o território de cada um a esta mesa. Não se enceta, come-se. Estamos de novo diante de mini-loiças, como as que usava em criança, com um mini-soufflé de chocolate preto na sua mini-forma, pousada sobre um pratinho onde ondula um fio de creme vermelho, com certeza decorativo, e onde se perdem três framboesas.

As conversas continuam e eu ausento-me. Entro nas profundezas dos meus sentidos. Aproveito a calma para me concentrar nas sensações produzidas pelo chocolate ainda morno e macio e as framboesas frescas e acídulas.

― Com certeza, não se lembra de mim. Estive na semana passada na empresa.

Perco a concentração na sensação produzida pelo esmagar da superfície aveludada das framboesas entre o palato e a língua. Viro-me para o lado esquerdo e encontro dois olhos verdes ou dourados. Gostaria de poder continuar o meu joguinho e perguntar se é algum cliente ou algum novo técnico. Mas pressagio que serei eu a fazer figura de urso.

― É possível.

Dou-me conta que a minha resposta não faz sentido mas tento manter a minha dignidade e com gestos lentos, para controlar a música orgânica, volto a virar-me para o meu suflé do qual infelizmente só me resta uma colherada.

― Das outras vezes, não a tinha encontrado. É nova no serviço?

Termino à pressa de engolir a delícia de chocolate.

― Cheguei em Novembro – digo com grande dificuldade, pois teria precisado de um gole líquido para enxaguar a boca da migalhice achocolatada que se me pegou às bochechas, gengivas e dentes.

― Adaptou-se com facilidade? Gosta de lá trabalhar?

Por um momento, fico pasmada a olhar para ele. Que raio de pergunta! Não, olhe, a sua empresa é um marasmo, se pudesse ia embora já amanhã. Não lhe passa pela cabeça que não poderia dizer a verdade se ela fosse negativa? O facto é que não o é. Tenho de cessar as minhas reflexões porque já devo parecer o peixe-espada da minha avó sobre a banca, olhos redondos esbugalhados.

― Sim – respondo, seguido de silêncio.

Parece-me colher um ligeiro sorriso e um olhar benévolo. Volto a virar a cara para o infinito à minha frente, brincando com madeixas de cabelo, na esperança de que o interrogatório não prossiga.”

 

Excerto do Capítulo 3, “Se à porta humildemente bate alguém”

Framboesas

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Estamos de novo diante de mini-loiças, como as que usava em criança, com um mini-soufflé de chocolate preto na sua mini-forma, pousada sobre um pratinho onde ondula um fio de creme vermelho, com certeza decorativo, e onde se perdem três framboesas.

As conversas continuam e eu ausento-me. Entro nas profundezas dos meus sentidos. Aproveito a calma para me concentrar nas sensações produzidas pelo chocolate ainda morno e macio e as framboesas frescas e acídulas.

― Com certeza, não se lembra de mim. Estive na semana passada na empresa.

Perco a concentração na sensação produzida pelo esmagar da superfície aveludada das framboesas entre o palato e a língua. Viro-me para o lado esquerdo e encontro dois olhos verdes ou dourados. Gostaria de poder continuar o meu joguinho e perguntar se é algum cliente ou algum novo técnico. Mas pressagio que serei eu a fazer figura de urso.

― É possível.

(Capítulo 3)

 

Sem olhar para ele, como lentamente uma colherada desta delícia procurando uma desculpa. A massa fofa, o creme chantilly ligeiro e vaporoso, a framboesa que explode em bolinhas acídulas.”

(capítulo 5)